Pé Diabético

O diabetes melito é uma doença metabólica caracterizada por um aumento anormal da glicose (açúcar) no sangue.

É uma doença bastante comum no mundo principalmente na America do Norte e no norte da Europa, acometendo cerca de 7,6% da população adulta entre 30-69 anos e 0,3% das gestantes. Porém estima-se que 50% dos portadores desta doença desconhecem seu diagnostico.

Com o aumento da expectativa de vida o numero de pacientes com diabetes no mundo vai aumentar em mais de 50%, passando de 380 milhões em 2025.

Por tratar-se de uma doença sistêmica, o diabetes pode acometer todos os tecidos: artérias, veias, vasos linfáticos, ossos, articulações, músculos, pele e nervos.

Uma das mais temidas consequências do paciente diabético de longa data é a perda de um pé, perna ou um dedo. Geralmente esta fatalidade ocorre devido a uma formação ulcerosa no pé que se agrava por dificuldade de cicatrização e/ou infecção.

A frequência de lesões nos pés pode ser explicada pelo fato deste segmento corpóreo esta mais exposto ao trauma e atritos que outras partes do corpo. Por esta razão foi criado o termo Pé Diabético. Este termo engloba uma situação clinica em que observamos vários distúrbios da estrutura do pé e da perna, com múltiplos sinais e sintomas que ocorrem nos pacientes diabéticos, desde dos distúrbios funcionais leves e iniciais até as lesões gangrenosas e mutilantes finais.

Constitui um grave problema de suade publica devido ao elevado numero de internações e procedimentos, com um elevado custo.

O diagnostico precoce e o conhecimento da historia natural desta doença podem prevenir as complicações, evitando mutilações e até mesmo óbitos destes pacientes.

Existem basicamente três fatores envolvidos na fisiopatologia das lesões que acometem o pé diabético: polineuropatia, angiopatia, osteoartropatia.

  • Polineuropatia: pode ser a neuropatia motora, sensitiva e a autossômica que são responsáveis pelo risco aumentado de desenvolvimento de ulceras. Paciente apresenta perda da sensibilidade à pressão e parestesia, que contribuem para o aparecimento de lesão cutânea. Outros fatores que contribuem para complicações no pé diabético são as deformidades osteomusculares, alterações na pele que culminam com perda da barreira de proteção à agentes externos.
  • Angiopatia: dividi-se em macroangiopatica e microangipoatica. A presença de doença vascular é vinte vezes mais frequente em pacientes diabéticos, estando a isquemia critica dos membros inferiores associada a 62% dos casos de não cicatrização das ulceras e causa de amputação em 46% deles.
  • Osteoartropatia: são as deformidades ósseas e musculares presente no paciente diabético, levando às deformidades que podem atuar como agentes precursores de lesões e ulcerações. Destaca-se o chamado ´pé de charcot ` onde ocorre uma deformidade e reabsorção óssea tornando-o mais suscetível a fraturas e luxações.

Outros fatores associados que podem contribuir para o agravamento do pé diabético seriam : trauma, infecção, hiperglicemia, tabagismo e obesidade.

O diagnostico é basicamente clínico e deve ser feito conforme a lesão predominante. Por isto a importância de na primeira avaliação o paciente ser classificado de acordo com as diversas classificações que existem. Usaremos a classificação de Wagner que é uma das classificações mais praticas e recomendas pela Sociedade de Angiologia e Cirurgia Vascular Brasileira (Sbacv). Segue classificação de Wagner:

Grau 0 – Ausência de ulcera em pé diabético; Pé em risco
Grau 1 – Ulcera superficial, envolvendo a pele
Grau 2 – Ulcera profunda penetrando ate ligamentos e/ou músculo, sem abscesso
Grau 3 – Ulcera profunda penetrando ate ligamentos e/ou músculo, com abscesso e/ ou osteomielite
Grau 4 – Gangrena localizada
Grau 5 – Gangrena extensa

Após a classificação destes pacientes é que iremos trata-los de forma individualizada. O tratamento padrão ouro é o controle rigoroso do diabetes, sendo uma forma eficaz de evitar as complicações. Não podemos esquecer as outras comorbidades associados como: controle da pressão arterial, abandono do tabagismo, evitar bebidas alcoólicas e controle do colesterol.

Nos pacientes que apresentam doença arterial obstrutiva periférica a cirurgia é a principal forma de tratamento das lesões com o objetivo de salvamento de membros. Quando existem a presença de abscessos e presença de tecidos desvitalizados uma limpeza cirúrgica pode ser realizada pra controle da infecção, podendo assim evitar amputações. E mais recentemente a cirurgia endovascular vem crescendo em suas indicações com a vantagem de ser menos invasiva e podendo ser repetida varias vezes caso ocorra a necessidade.

Estes pacientes devem ser abordados de forma multidisciplinar (endocrinologia, oftalmologia, cardiologia e equipe de enfermagem especializada em curativos). O cuidado adequado com o pé diabético diminui consideravelmente o sofrimento físico e as incapacidades temporárias que esta patologia traz, promovendo assim uma melhora significativa na qualidade de vida desses pacientes, bem como uma diminuição nos gastos socioeconômicos desta doença.